Mergulhei. Não consegui fugir por terra nem por ar, então mergulhei. Fui para o fundo de um oceano real ou imaginário e por lá resolvi ficar. Fiquei tanto tempo lá, escondido, que me esqueci de como era o mundo de verdade. Desenvolvi mecanismos de sobrevivência tais como guelras que me faziam respirar e me alimentar no fundo desse mar.
Fiquei por tanto tempo ali, que os seres daquele lugar me deram título de propriedade e me tratavam como se fosse um rei. Pronto. Tudo resolvido, sou eu, sou livre, sou rei do meu próprio mundo.
Quando, subitamente, um raio de sol atravessa aquela gigantesca muralha de água e faz um jogo de espelhos ao meu redor, eu me vejo, pela primeira vez, depois de muito tempo. Os espelhos são tantos que povoam o lugar, o meu reino, com tantos eus iguais e diferentes. Vejo tantos eus que já fui e percebo que cada um deles se escora em um refúgio, em algo ou em alguém. Hoje na falta de tudo isso, me escondi em mim mesmo. E assim eu observo aqueles inúmeros outros eus que eu nunca fui e sei que não posso ser nenhum deles, não nesse meu reino naufragado.
Ontem eu fugi do mundo para poder reinar sobre mim mesmo e hoje tenho que fugir do meu reino para que ele não reine mais sobre mim.
Quero ser livre. Quero, acima de tudo, ser livre.
Ontem eu estive em conflito com o mundo para isso e hoje estou em conflito com tudo o que já fui.
A briga é boa. A liberdade da mudança também.

1 comentários:
A briga é bem boa ;)
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